Processo Criativo
Creative Process

O projeto GRETAS DO TEMPO surgiu pelo convite que recebi do Balé do Teatro Castro Alves (BTCA) através do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Ações Coreográficas para realizar um trabalho cênico com seu elenco tendo como prioridade o processo investigativo do bailarino, retirando assim o foco principal na obra cênica em si mesma. Tal convite surgiu quando eu estava fora do país no meu período de pós doutoramento no Sonic Arts Research Center (SARC), em Belfast, Irlanda do Norte em 2012. Foram 2 anos de negociações para alcançar possibilidades exeqüíveis para realização do projeto que já nascia com o interesse de atuar no campo da dança com mediação tecnológica, linha de pesquisa que sigo desde a década de 90 e motivo pelo qual fui convidada. Por fim, o projeto iniciou no final de maio de 2014.

Desde o início, percebi a proposta de forma entusiasmada uma vez que me parecia fascinante trabalhar com bailarinos que participam há tanto tempo de uma companhia estável da magnitude do BTCA que conta com uma trajetória longeva na qual vários e distintos coreógrafos já haviam atuado. Como seria então trabalhar com corpos marcados por experiências tão diversas, corpos maturados pelo tempo e pelas diversas proposições estéticas a que foram expostos? Questão que foi sentida como estímulo para essa nova criação.

Esse aspecto coincidia perfeitamente com minhas buscas que se intensificavam aquela época: as noções de presença advindas com a contemporaneidade, as quais, por sua vez, apresentavam novas possibilidades para compreender nossa percepção quanto ao sentido de “tempo” (ou temporalidade). Noções essas que encontraram consonância com os interesses do artista Sandro Canavezzi que convidei para uma parceria na instalação telemática interativa desse projeto.

Esses termos já haviam se tornado meus objetivos de pesquisa intensamente explorados nos espetáculos de dança telemática, ou arte em rede como preferimos chamá-la atualmente, assunto ao qual me dedico academicamente há mais de 10 anos. Soma-se a isso, o interesse despertado em 2011 pela sonoridade que me estimulou a desenvolver uma ideia de “corpo-sonoro” a qual tipo oportunidade de explorar em diversas obras artísticas e de estudar no SARC.

Sendo assim, o “corpo-sonoro” foi o objeto de estudos desse núcleo de bailarinos para construir as obras do projeto GRETAS DO TEMPO. Não apenas o estudo dessa sonoridade ocorreu na investigação corporal desse elenco desafiado a pensar a dança por outros caminhos, mas também na forma que convidamos o público para compartilhar essa dança. O público é estimulado a aguçar a percepção auditiva de distintas formas, tanto na videodança e na caminhada (soundwalk) em que devem utilizar fone de ouvido, ou mesmo na instalação, toda a “trilha sonora” foi construída a partir dos sons produzidos pelo próprio corpo do bailarino, seja pelos seus sons orgânicos, acústicos ou simbólicos. Para as três obras de GRETAS DO TEMPO, os bailarinos foram responsáveis por descobrir sonoridades corporais que permitissem estimular a imaginação do público para perceber a dança.

O desafio com os bailarinos em busca de suas memórias, de suas verdades quanto pesquisadores da dança em uma companhia estável, através da exploração e exposição do “corpo-sonoro” para falar, dançar e (re)perceber o mundo obteve, bravamente e lindamente, um enorme êxito, seja no que tange a investigação corporal ou a respeito dos resultados estéticos. Acredito que esse seja o grande valor de compreender e atuar na dança como um campo de conhecimento e não apenas de produção. Um mérito para Aguinaldo Fonseca, Lícia Morais, Lila Martins, Paullo Fonseca e Rosa Barreto.

Convidamos a todos para essa aventura perceptiva e apreciação da dança não apenas com (a ênfase n)os olhos, mas se permitindo escutar a dança desse corpo.

Gretas do Tempo – Processos

The GAPS IN TIME project resulted from an invitation I received from the Castro Alves Ballet Theater (BTCA) through their Núcleo de Estudos, Pesquisas e Ações Coreográficas (Center for Studies, Research and Choreographic Actions) to create a scenic work with its cast, giving priority to investigating the dancer’s process and thereby removing the focus from the main scenic work itself. I received this invitation while I was out of the country doing post-doctoral research at the Sonic Arts Research Centre (SARC) in Belfast, Northern Ireland in 2012. It took two years of negotiations to achieve feasible possibilities for realization of a project whose inception already intersected with my active interest in the field of technologically mediated dance, research in which I have been involved since the ’90s and the motive for the invitation. The project finally began in late May 2014.

I was enthusiastic about the proposal from the beginning, since it fascinated me to work with dancers who had, for such a long time, been part of a stable company of the magnitude of the BTCA, one with an extensive trajectory that included the work of a number of distinctive choreographers. What would it be like to work with bodies marked by such diverse experiences, bodies matured by time and the various aesthetic propositions to which they were exposed? That question became the stimulus behind this new creation.

This aspect coincided perfectly with what I was intensively researching and searching for at that time: notions of presence arising with contemporaneity, which, in turn, presented new possibilities for understanding our perception of the meaning of “time” (or temporality). These notions found ressonance with the work of the artist Sandro Canavezzi, and I invited him to collaborate as a partner in the interactive telematic installation of the project.

These terms and notions had already formed the basis of a research intensely directed into telematics dance performances, or art network as we currently prefer to call it, a subject to which I have devoted myself academically for over 10 years. An interest aroused in 2011 by sonority encouraged me to develop a notion of “sonorous-body,” ideas I was able to explore in a number of art works and study at SARC.

Thus, the “sonorous-body” became the object of study for this nucleus of dancers to develop the GAPS IN TIME works. The study of sound, then, not only became a challenge for the dancers to think about dance and investigate the body through other perspectives, but it also allowed the public to share the dance. The public is encouraged to sharpen its auditory perception in different ways, both in the screen dance and during the walk (soundwalk) in which they must use a headset, or even while viewing the installation. The entire “soundtrack” was created from the sounds produced by the very dancer’s body, by their organic, acoustic or symbolic sounds. For the three works of GAPS IN TIME, the dancers themselves were responsible for discovering bodily sounds that would stimulate the public’s perception of the dance.

The challenge that the dancers met to search their memories and truths as dance researchers in a stable company through exploration and exposition of the “sonorous-body, ” and to talk, dance and, in essence, bravely and beautifully (re) perceive their world was a huge success, both in terms of corporal research as well as aesthetic results. I think this was of the greatest value in understanding and using dance as a field of knowledge and not just as production. For this, merit goes to Aguinaldo Fonseca, Lycian Society, Lila Martins, Paullo Fonseca and Rosa Barreto. We invite you all to join this perceptual adventure and appreciate dance not only through your eyes, but by allowing yourself to listen to this body as dance.

Gaps in Time – Process